domingo, 25 de junho de 2017

Carta do dramaturgo Antonin Artaud




Buscamos uma carta do livro "A PERDA DE SI" uma obra que compila cartas do Artaud em vários momentos da sua vida. Seus pensamentos sobre arte em geral e sobre o conhecimento da humanidade. Encontramos uma alma destruindo suas amarras para encontrar sua criatividade.

ABAIXO A CARTA:


Caro André Breton, Te escrevo do fundo do meu degradado e terrível estado de saúde, que se deu em toda minha vida e agora apenas se duplica, como se agora eu tivesse aqui chegado, realmente chegado às portas da morte, à decisão do que foi a minha angústia ao longo de toda a minha existência. Essa que você conheceu em pedaços (escritos!) isso para não ter que te dizer que o não escrito é o que conta, porque o suficiente é agora mais do que demasiado, fora e além. Tudo isso para dizer que não poderei te dar as páginas para o catálogo da sua exposição, porque sofro enormemente e que isso do que sofro é justamente um dos pontos essenciais da exposição que você tenta: a iniciação, a magia, os cultos indígenas e vodus, tudo isso que representa uma integração do abominável espírito humano em torno da fé, da crença em algo, da ilusão enraizada em algo, não sei qual além imediato contido na magia, nas iniciações, no ocultismo, onde há séculos e séculos prolifera sordidamente tudo isso que me foi inimigo e que não cessei através de todos os meios e de todos os lados de combater. Essa ação dissimulada da consciência da massa refugiada atrás dos ritos esotéricos destituídos e que manobram mais e mais subterraneamente contra a minha própria liberdade. E, se você quiser, da nossa liberdade comum, em vista da manutenção de um certo número de quadros tão invisíveis quanto falseados na sua insipidez negra. – Nunca suportei a ideia de iniciação porque nunca acreditei que haja algo no fundo ou no fim seja do que for, que valha a pena para aí tender ou alcançar, e sobretudo que se tire a carcaça para alcançar, uma estranha ideia bem limitadamente humana que faz ver como um cume do mundo (ou dos mundos) que mundo? quais esferas do mundo? (e chega com esse catecismo do criado e do não criado), com essas racionalizações filosóficas ou dialéticas sobre a natureza, prepúcio, hímen, não ser, possibilidade, ou com os totens que os ignoram, e sem dizer, visam ainda assim representá-los. – Chega dessa aterrorizante pedagogia do oculto desde sempre nas mãos daqueles que com o espírito o pensam (os assim chamados Instrutores ou Mestres). Mas que foram em “essência” e “princípio” incapazes de viver uma realidade cem vezes mais espantosa do que eles, porque ela se vive com o corpo e não com a consciência, e sobre a qual não importa qual um menor, qual desentupidor, qual bombeiro, qual lixeiro, qual operário, não importa qual afásico, qual sifilítico, não importa qual paralítico total, ou qual sifilizado teriam tempo para aprender. Isso porque as famosas viagens da alma ao longo das esferas, ou do espírito no inconsciente reprimido e recalcado passam num país que nunca existiu e onde só viveram fracos, incapazes de se baterem com o estupro dos objetos. É o medo do real que deu origem às iniciações, como se a gente fosse capaz de alcançar com o espírito uma experiência unicamente baseada sobre o suplício minucioso e detalhado do corpo, não na morte, mas na vida, não no irreal, mas na matéria, não na hipotermia do sonho, mas na febre de uma dor acordada, não na liquefação de um surrealismo psíquico, mas no traumatismo corporal de uma vida que soube ela mesma balançar-se suficientemente para enfim explodir em surrealidade. Porque se o surrealismo não era real, então para quê? Mas até isso chega. Não suporto mais a arte sob nenhum aspecto, a arte, tudo que não é um golpe, uma merda, uma carnificina, uma batalha, um golpe definitivo de vassoura. Não fui ao teatro 13 de janeiro último para me apresentar num espetáculo, e dar ali um espetáculo, mas para mostrar as feridas da minha luta, com a consciência abjeta de nosso tempo que é pior do que o de Gérard de Nerval, de Edgard Poe ou de Lautréamont. E quando você me disse que foi hostil a esse projeto, não, não se trata do fato de ter-me mostrado num teatro que justifica a tua hostilidade, André Breton, é o objeto mesmo da minha exposição que você não queria que fosse mostrado e trazido à luz, – e essa coisa mesma não creio que seja você

oc e proc or ero ke doc ta or e doctri or era Rada Ora,

 André Breton, é preciso realmente que a "imoralidade" desse mundo tenha chegado a um grau intensivo de bestialidade para que mesmo por um segundo e sem sombra de um pretexto sequer a questão possa se colocar de achar hostil a ideia de ver falar em público um homem como eu que verdadeiramente saiu da tumba e que tem a colocar contra o mundo que o encerrou na tumba um certo número de capitais e muito preciosos muito precisos e muito preciosas acusações Eu quis falar em público, André Breton, não pelo prazer de remexer a bunda como alguns solenes e célebres veados eclesiásticos que conheço, mas porque para esse público mesmo eu tinha um certo número de coisas a dizer e onde melhor dizer que não na sala de teatro? Pensa a velha consciência anterior à outra guerra, essa de 1914-1918. Isso porque numa sala de teatro esse público não vem agora para ver ou ser visto, mas para massagear, conglomerar sobre um certo ponto, durante uma hora duas ou três, um certo corpo aberto, (me escute bem, André Breton, e me leia definitivamente bem porque nunca mais poderei voltar a isso) digo que o público já faz algum tempo e sempre foi assim mais ou menos conscientemente e sistematicamente, mas veja que faz 30 anos e que isso chega ao paroxismo da astúcia, da malignidade e da perversidade do mais baixo nível, o público só se junta para massagear e enrolar como polpetones e carnes recheadas um certo corpo, uma certa substância grumosa por horas preparada entre coxa e pernil, ali onde está um bom cocô, sentir, cheirar, transformar como um bom cão na coleira, como bom cão, cão bem domesticado, e essa substância é feita de ciúme, ódio, inveja, aspereza maligna contra o poeta que ele vem ver e "aplaudir" e escutar contra o pintor [van Gogh] que ele vem ver uma vez mais atirar e irradiar com a condição que ele atire e irradie cristal do crime de sua dor só e não do pão e ópio enriquecidos pela vida derrapante e de luz fulminante que esse público lhe teria dado para brilhar e atirar. Sabendo disso, não iria ao Vieux-Colombier para uma sessão e sim para levar as minhas acusações. – Elas estavam em cinco poemas, estavam também num texto que não li porque não me pareceu ali na hora suficientemente tenebroso para a circunstância. Dito isto, como eu poderia escrever um texto para uma exposição aonde virá esse mesmo público fedorento, em uma galeria que obtendo seus fundos de um banco comunista é ela mesma capitalista, onde se vendem muito caro quadros que não são mais pinturas e sim apenas mercadoria, valores, intitulados VALORES, e que estão no mundo tudo isso que enquanto objetos se chama VALOR, esses tipos de grandes papéis impressos de várias cores e que representam sobre um simples papel (oh que milagre) o conteúdo de uma mina, de um campo, de poços de petróleo, de sedimentos, de empresas, de uma prospecção, da qual o posseiro, o proprietário, o possuidor em nada participou, nem mesmo com um pedaço quebrado de sua unha, enquanto milhões de trabalhadores se exauriram, e mesmo o objeto, para que o condenado chamado espírito goze com o trabalho material do corpo. Pois bem, eu não quero escrever um texto que será assim apresentado numa galeria de pintura, como nesses locais de leilão de quadros, onde se vende o suor dos homens, a transpiração dos suicidados, saídos da crispação da mão, dos dedos rijos do pobre Van Gogh sobre o seu pincel, que não são senão: isso que tudo vale. Quanto à outra razão já te disse, sou o inimigo do ocultismo o inimigo sobretudo das iniciações, do princípio da iniciação. Não admito que me recalquem e me recusem fora da verdade do nascimento e porque sou homem e detenho e conheço para me obrigar a reencontrar pequena e fracamente através de uma aritmética arbitrária, gratuita, pressuposta e inventada, uma graduação que jamais existiu senão no cérebro dos macacos bestializados que tomaram a minha humanidade.

Link para matéria: 
https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2017/06/08/%E2%80%98A-perda-de-si%E2%80%99-correspond%C3%AAncia-do-dramaturgo-Antonin-Artaud
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