domingo, 16 de julho de 2017

Entrevista Psicologo Escolar


Psicólogo Escolar - Psicologo C.T.


  1. Qual o maior obstáculo para a boa atuação de um psicólogo escolar atualmente?

Vejo que existem obstáculos de diferentes ordens. Para começar são poucas as escolas que dispõem de um psicólogo escolar em seus quadros de funcionários, sejam públicas ou privadas. Algumas optam por manter apenas um psicólogo consultor para encaminhamento de “casos- problema”, o que se distancia, em minha opinião, do real papel deste profissional. Acredito que o saber do psicólogo escolar tem sido cada vez mais reconhecido como necessário à Escola, no entanto, muitos preconceitos precisam ser vencidos por parte das instituições para que ele possa realizar uma atuação que ultrapasse o paradigma do laudo, da correção e da adaptação.  Há também obstáculos de ordem econômica e de gestão que não podemos ignorar. Ter um profissional na equipe tem um custo financeiro e também exige organizar e propiciar condições de trabalho a ele. Às vezes se paga, mas não se permite  verdadeiramente ao profissional realizar o trabalho. Isso é um grande obstáculo.

  1. Quais são os casos mais freqüentes, considerando transtornos de aprendizagem?

Em minha experiência prevalecem os transtornos emocionais que acabam interferindo na aprendizagem. Mas há muitos casos de TDAH, transtornos da fala e da linguagem e distúrbios globais do desenvolvimento.

  1. Os educadores conseguem perceber com facilidade problemas que afetam os alunos, mas que fogem de seus controles?

O olhar dos educadores é fundamental para a detecção dos problemas que afetam os alunos. Geralmente eles logo notam que alguma coisa não vai bem com o aluno, alguns conseguem avaliar melhor e contribuir com hipóteses bastante consideráveis e sensatas e as compartilham de forma responsável com a equipe (coordenação), outros até percebem, mas se vêem tendo de lidar com as próprias resistências e podem se tornar um empecilho para o enfrentamento do problema. Por isso precisamos ficar bem próximos deles também.


  1. Quais seriam (Se é que podemos fazer tal levantamento) os maiores fatores estressares que desencadeiam tais queixas?

Se vocês se referem às queixas dos educadores em relação aos problemas detectados, acredito que o estresse acontece quando a dificuldade do aluno atrapalha a rotina da sala, a programação do professor. São muito mais comuns as queixas se originarem quando o aluno apresenta comportamentos ligados à agitação, indisciplina, rebeldia do que quando se mantém quieto e isolado. Um péssimo indicio.


  1. Como os alunos respondem as palestras ou avisos de conscientização sobre problemas de aprendizagem? São solícitos ou se mantem sarristas?

Na organização onde trabalho não fazemos palestras deste tipo aos alunos, ou seja, direcionadas, apenas aos próprios educadores e famílias. No entanto, trabalhamos com temas transversais onde procuramos chamar atenção deles para a diversidade humana, para a importância do respeito e da solidariedade de forma geral.

  1. As atividades propostas sofrem algum tipo de alteração ao serem aplicadas a alunos com problemas de aprendizagem?

Sim. Os educadores procuram adaptar as atividades para atender as especificidades dos alunos com dificuldades. Algumas crianças precisam de mais auxílio, de mais espaço, de materiais especiais.  

  1. Como é a aceitação dos alunos com colegas que apresentam a dificuldade de aprendizagem? São preconceituosos ou solícitos?

Para minha surpresa, na instituição onde trabalho eles são bem receptivos, até mesmo os adolescentes e jovens. Não que não haja casos eventuais. Talvez seja um sinal de que estamos indo bem no trabalho continuo de promoção dos direitos e deveres humanos. Conseqüentemente a isso trabalhamos a questão dos preconceitos, da valorização das diferenças, da aceitação do outro e de si mesmo o que é muito diferente de falar de tolerância e vai além motivar atitudes solidárias como aquelas que se encerram em ajudar o amiguinho com a cadeira de rodas ou coisas assim. Fico contente em ver isso muito vivo por parte dos alunos, talvez muito mais claro do que por parte dos adultos.

  1. Os alunos se interessam pelo cenário político brasileiro? São interessados em mudanças ou não chegam a citar?

Como trabalho em uma ONG, o projeto sócio-pedagógico privilegia a consciência e a participação política dos educandos e  de suas famílias em diversos contextos. De certa forma, o Projeto precisa desta postura para a própria sustentabilidade na comunidade. Não é tarefa fácil pensando que as pessoas estão mais habituadas com o assistencialismo e com a politicagem. Temos um trabalho forte em torno do ECA, até mesmo com a educação infantil.
A maioria deles acaba se envolvendo de alguma forma, os adolescentes participam de fóruns, participam de algumas decisões internas. Estes projetos parecem pequenos passos, mas servem como referência para eles aprenderem que ação política é algo muito mais próximo e cotidiano do que se pensa. Talvez seja uma forma de começar. Seguindo Paulo Freire, procuramos construir sentidos e significados a partir do que eles experimentam no dia-a-dia na ONG, no ambiente doméstico, nas ruas e na comunidade do entorno, então problematizamos tudo e eles começam a criar novas conexões. Não adianta tentar empurrar noticias, mandar ler jornal, ouvir a CBN ou algo deste tipo. As pessoas só se interessam por coisas que fazem sentido para elas, precisam ser mobilizadas em seus sentidos e sentimentos. Eles passam a perceber a importância de compreender o cenário político quando tomam consciência de que fazem parte do cenário político enquanto cidadãos de direitos e deveres. Isso é um processo socialmente construído e que enfrenta muitas contradições e resistências, na escola é assim. Aliás, a escola pode ser ao mesmo tempo, transformadora e resistente, politicamente falando e talvez que psicopedagogicamente também, mas o fato é que lentamente podemos colaborar para a formação se não de todos, mas de muitos deles.

  1. As ‘’panelinhas’’ formadas pelos alunos, atualmente são vistas positiva ou negativamente pelo colégio? Quais são os pontos positivos? O que é feito para que elas se dissipem?

Normalmente nos preocupamos quando as panelinhas geram problemas, ou seja, quando estes grupos passam a funcionar de maneira destrutiva ou agressiva a outros grupos, normas, pessoas. Caso contrário, entendo que fazer panelinha é natural em certos momentos do desenvolvimento. De toda maneira, sempre orientamos aos educadores para desenvolverem atividades que estimulem a interação entre os grupos.

  1. A área escolar é boa para atuação? Você a recomendaria para os psicólogos em formação?

Identifico-me bastante com esta área. É dinâmica, desafiadora e guarda possibilidades interessantes de aprendizagem ao profissional dedicado. Como outras áreas, esta também tem obstáculos e aspectos menos ou mais recompensadores. Recomendo para aqueles que gostam de “correria”, de compartilhar em grupo, de estudar e pesquisar e, sobretudo, àqueles que acreditam que as potencialidades das pessoas são mais importantes do que as dificuldades.

  1. Os pais dos alunos têm uma participação ativa na vida escolar dos filhos ou se apresentam somente quando lhes são solicitados?

Não dá para generalizar. Existem os pais participativos e os ausentes. Em minha experiência, boa parte participa da forma como pode e isso também precisa ser valorizado pela escola. Os que não participam devem ser trabalhados, chamados a consciência.  É dever dos pais, das famílias se responsabilizarem pela parte que cabem a eles a educação dos filhos. Em casos extremos de ausência, precisamos mostrar isso a eles. Lá tentamos orientar, formar, acolher e desenvolver esta atitude, mas quando não há resultados,  quando se configura negligencia, então outros atores  tem de entrar em cena.  Muitas vezes, é preciso notificar o Conselho Tutelar ou outros órgãos competentes (Defensoria,Vara da Infancia e Juventude, CRAS). 


  1. Em sua opinião, deveria existir uma especialização dos educadores para lidar de uma melhor forma com as fases de desenvolvimento pelas quais os estudantes passam? Quais?

Honestamente não sei se seria uma solução. Especializar quase sempre implica em dividir, em separar o conhecimento em partes, isto é perigoso em educação e em psicologia também. O educador precisa compreender e se comprometer com seu papel na educação, que a meu ver é pedagógico, ético e político. Penso que há complexas questões envolvidas naquilo que esperamos da Escola, dos educadores e até das Universidades. Não que conhecer desenvolvimento seja desnecessário, pelo contrário, mas especializar poderia ser tentar simplificar a questão e atribuir mais funções ao educador ou ainda naturalizar questões que talvez sejam de outras ordens, como sociais e econômicas. De qualquer forma, enfrentamos dificuldades também no ensino superior com a formação, com os currículos e avaliações. Que educadores as universidades estão formando? Qual o papel das Universidade no século XXI? Que educadores e profissionais são requeridos na atual configuração sociedade?. Parece que tenho mais questões do que respostas quanto ao tema, mas considero ingênua a idéia de que especializar seria uma solução. Seria talvez como dar casaco aos mendigos e com isso dizer que resolvemos o problema da população de rua. Se é que fui feliz na comparação!

  1. Qual é a melhor medida a ser tomada pelo corpo escolar quando o aluno informa ao educador ou amigos uma situação de risco ou violência em casa?

Penso que a melhor medida, sobretudo inicialmente é ter cautela. Chamo de cautela, cuidado, bom senso, responsabilidade e compromisso ético institucional e profissional. Coloco isso porque é muito comum em casos de violência contra criança e adolescente, principalmente quando identificadas na escola que se esperem atitudes heróicas ou que  deixem “a bomba” nas mãos do educador ou daquele que primeiro enxergou ou suspeitou da violência. É um drama certo e muito maior quando a violência é tratada assim porque esbarra em valores, resistências, crenças, tabus, identificações pessoais e numa uma série de obstáculos objetivos também.
A escola precisa assumir verdadeiramente, enquanto instituição, seu papel na defesa e na proteção da criança e do adolescente. Como isso ainda não está determinado em leis, regulamentado como na saúde, por exemplo, onde os profissionais têm obrigação de notificar caso identifiquem sinais ou suspeitem de violência, o processo fica mais complicado. São diversos obstáculos: a escola tem medo de “levantar a poeira” e não conseguir lidar com a criança, com a família; teme expor seus profissionais a riscos, que muitas vezes, são reais; querem evitar problemas com a justiça.
Por isso iniciei falando de cautela porque é realmente algo que exige assumir posturas e atitudes. Além disso, e por isso, é preciso também compartilhar com outros profissionais da escola e até da rede de parceiros com quem se tenha contato e confiança.
Violência intrafamiliar consiste em um problema complexo que envolve questões de saúde, psicossociais, culturais e até religiosas. Compaixão, boa vontade e iniciativa podem ajudar uma criança vitima de violência no primeiro momento, mas logo se percebe que a queixa, os sinais físicos, os sintomas psicológicos são apenas a ponta de um emaranhado de fios que levam a uma família marcada por violências em sua dinâmica e história. É preciso conceber a família toda como alvo do trabalho de combate a violência. Então, agir sozinho, sem engajamento institucional ou tentar escamotear tende a dar péssimos resultados que podem piorar a situação da vítima. Isto não quer dizer que se deve expor a vitima, de forma alguma, a vitima necessita de ser protegida, acolhida, ouvida, respeitada em seus direitos e deveres, sobretudo para que sua queixa não reproduza mais violências. Todos os envolvidos diretamente com o caso devem discutir, planejar ações, se responsabilizarem pela parte que lhes cabe, preparando-se inclusive, para aceitar e suportar limitações.
Na organização onde trabalho enfrentamos, com bastante cuidado, muitos casos de violência. São violências de vários tipos (negligencia, sexual, trabalho infantil, psicológica) e mesmo tendo uma equipe voltada para pensar e trabalhar o problema da violência (qual faço parte), tanto na prevenção quanto no combate, nos deparamos com diversos desafios pessoais e institucionais. Um exemplo clássico e que pode gerar grande frustração em pessoas menos experientes, e até nas experientes, são os casos em que se percebe que a vitima e o agressor mantém um vínculo de dependência (objetiva e subjetiva) tamanho que acaba anulando as várias tentativas de intervenção ou ainda a constatação de que a rede de proteção básica ou o judiciário, em virtude da burocracia, de interesses outros, atrapalham ou não cumprem suas funções causando mais danos às vitimas e desgaste aos profissionais.

No entanto, como psicóloga e como cidadã, mas nunca como “mulher maravilha” ou Madre Tereza de Calcutá penso que todo esforço deve ser empregado na defesa dos direitos humanos. A criança e o adolescente têm o direito de receber proteção, ou melhor, precisam da proteção da família, do Estado e da sociedade para crescerem saudáveis e se tornarem cidadãos íntegros. A Escola está implicada nisso e todos que dela participa, não tem como negar este fato histórico e social, mas nos cabe o desafio de tentar compreendê-lo para podermos enfrentá-lo. 
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